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Fotografia de uma cerâmica escura restaurada com linhas de ouro seguindo as rachaduras, técnica Kintsugi.

Clínica psicanalítica decolonial

Sua dor não acontece no vácuo

Como é uma clínica psicanalítica decolonial?

Uma clínica psicanalítica decolonial reconhece que a existência do sujeito está entrelaçada à história coletiva da qual faz parte. Não se trata de criar uma nova técnica ou abandonar os fundamentos da psicanálise, mas de afirmar que o sofrimento psíquico não nasce apenas do interior de uma pessoa, e sim que ele também se produz nas relações, nas heranças históricas e nas estruturas de poder que atravessam e constituem os modos de ser e estar no mundo. O termo decolonial aponta para uma sensibilidade que desnaturaliza essas estruturas: aquelas que organizaram, e ainda organizam, o laço social.

A partir dessa compreensão, a escuta se orienta tanto pelas questões singulares de cada paciente, quanto pela consideração de que, em determinadas situações, o sofrimento não se reduz apenas à história pessoal, mas se inscreve em uma sociedade que ainda reproduz hierarquias herdadas da colonização. A ética decolonial fundamenta, assim, uma clínica pluri-versal, na qual diferentes existências, temporalidades e saberes possam ser escutados sem serem reduzidos a enquadramentos prévios.

A perspectiva que proponho construir e exercer busca propiciar um espaço acolhedor à diferença. Tanto àquela marcada socialmente (como raça, gênero, sexualidade, classe, origem ou deficiência), quanto à diferença daquilo que, a partir dessa(s) marca(s), o sujeito construiu de si próprio ao internalizar as narrativas depreciativas dos outros. É uma clínica que aposta na possibilidade de cada paciente encontrar a própria potência e de inscrever sua singularidade no mundo.

Essa posição não parte de categorias fixas nem de recortes pré-estabelecidos, mas da escuta do sofrimento tal como ele se apresenta em cada história. Quando esse sofrimento é atravessado por experiências de subalternização ligadas aos marcadores sociais, a clínica decolonial não as trata como pano de fundo irrelevante nem como sendo atributos apenas do sujeito. Elas podem ser nomeadas e elaboradas, permitindo discernir quando o sofrimento decorre de violências concretas e quando se articula a repetições, projeções ou defesas que fazem parte da própria história.

Por que a cultura impacta o modo como você sofre?

Freud já dizia que toda psicologia é uma psicologia social. Não há como separar as subjetividades das culturas às quais pertencem. As histórias e as culturas brasileiras entrelaçam o nosso mundo e produzem quem somos, atravessando nossos modos de sentir, desejar, sofrer e nos relacionar.

Muitas dessas culturas carregam marcas da colonização que ainda persistem na sociedade. A colonialidade do ser e do saber, por exemplo, hierarquiza pessoas e conhecimentos, segrega e exclui o que foge dessa perspectiva de mundo. Essa lógica valoriza apenas modos de ser eurocêntricos e relega a segundo plano quem — ou o que — não se adequa a essa norma.

A prática conhecida como “cura gay” é um caso evidente dessa colonialidade: ela caminha no sentido oposto ao reconhecimento da singularidade e intensifica o sofrimento por meio de culpa, vergonha, auto-ódio.

Na socialização masculina, observamos uma dinâmica semelhante. A masculinidade hegemônica estabelece como critério de reconhecimento a performance de um modelo cisheteronormativo, associado à provisão, ao controle e ao silenciamento dos afetos. A mesma norma que organiza o pertencimento entre os homens pode tornar-se fonte de sofrimento quando alguém não se encaixa nesse padrão ou quando a própria vida exige respostas que escapam a esse script.

A colonialidade também opera na clínica quando um terapeuta diagnostica o sofrimento de uma pessoa negra, decorrente de uma vivência real de racismo, como se o problema estivesse nela mesma, e não na estrutura que a oprime. Isso ocorre, por exemplo, quando a vivência do racismo é reduzida à “paranoia”, silenciando o reconhecimento de que pode existir uma força exterior, relacionada a uma forma de organização social, operando no sofrimento relatado.

Uma escuta que respeita o seu tempo e a sua história

Junto com o contexto social que nos atravessa, a terapia é também um espaço para que a história pessoal possa vir à tona. Essa história tem a ver com uma herança transgeracional, com o território e o contexto sócio-político de quem está no processo terapêutico. A nível particular, ela é marcada por lembranças acessíveis e por outras reprimidas (estas, muitas vezes, estão na origem dos sintomas). Muitas vezes, o que parece ser apenas um travamento, um medo ou uma tristeza constante, revela-se no processo terapêutico como uma ferida aberta por expectativas impostas, que nunca foram questionadas ou escolhidas por você. Ao entrar em contato com o que faz sofrer, os sintomas podem ganhar o atravessamento de uma historicidade, permitindo que você reveja a forma como se relaciona consigo e com os outros, tendo, assim, a possibilidade de deixar para trás o que não faz mais sentido e encontrar o que ainda faz e mobiliza.

Ao respeitar o seu ritmo, a clínica institui uma outra temporalidade: um tempo de respiro frente às forças dominantes da sociedade, permitindo desfiar o caos emaranhado da vida e construir uma narrativa própria. Nesse processo, se a ansiedade antes impunha uma aceleração difusa, aqui encontramos palavras para nomeá-la; se a depressão o faz encolher, aqui seu tempo é respeitado, sem a pressão externa que exige uma produtividade que lhe tira do eixo.

Espaço para uma (re)construção de si

Uma clínica psicanalítica decolonial não oferece soluções prontas nem modelos de normalidade. Ela aposta no singular e no encontro clínico como espaço de invenção. Escutar, nesse sentido, é também um gesto ético e político: permitir que histórias silenciadas encontrem lugar e que novos modos de existir possam ser (re)construídos.

Se você sente que sua história está emaranhada em expectativas ou narrativas que não são suas, vamos conversar. Agende um primeiro encontro para darmos início a essa (des)construção.

Escrito por Jesse Rodriguez Cardoso, psicólogo clínico e mestre em Psicologia Social.

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